Uma nova espiritualidade em tempos de pandemia.

Já passamos por mais de 5 meses desde que as coisas começaram a se agravar no Brasil, com a pandemia. Uma atenção nítida está no ar: incertezas econômicas, políticas e desestruturação do normal que vinhamos vivendo.  Creio que se faz necessário nesse momento atual, mesmo com toda a instabilidade estrutural que estamos vivendo, que o interpretemos como algo que nos faça crescer e que nos provoque mudança.  Mesmo que seja dolorido, neste momento, reconhecer que “mudanças e instabilidades” podem revelar um novo amanhecer para a humanidade.

Claro, a impressão que temos é que as coisas pioraram e que tudo está indo ladeira abaixo em nosso país. As perguntas que nós fazemos geram ainda mais inseguranças e medos.  Até quando isso tudo vai durar?  Até quando vamos ver os absurdos e omissões com a saúde pública? Até quando vai durar a ruptura institucional no nosso país?

Mas tomemos consciência: na vida nada é permanente. Mesmo com todo esse cenário de limitações, a história do passado nos mostrou que existe superação.

Vale a pena recordar as pandemias na história que marcaram época ou mudanças de épocas como, por exemplo: a Peste Negra, que fechou a idade média e trouxe um renascimento, uma explosão de vida e de arte.  Tempos novos para a cultura e para as grandes descobertas científicas, que ajudaram tanto a humanidade.

A gripe espanhola de 1919 fez o dobro de vítimas da Primeira Guerra Mundial. Porém, essa pandemia, acompanhada da devastação da Guerra, trouxe ao mundo um censo de humanidade, liberdade e criatividade. Países devastados se reconstruíram e apostaram na capacidade de tecnologias de ponta, comunicação em massa e se tornaram referencias na qualidade de vida.

Agora, com a pandemia da COVID-19, pode sim acontecer mudanças em nosso mundo. Por exemplo:

  • Transformações no modelo econômico, na organização social e política, na nossa relação com o meio ambiente e em outros aspectos da vida, como por exemplo: a espiritualidade.

Tem sido positiva a angústia que vivemos, porque ela, mesmo depreciada, está nos levando a uma transcendência, a sairmos de nós e confiarmos no melhor, no bem e na esperança: objetos de uma crença, que vá além das religiões, que por sinal, a cada dia se revelam mais institucionalizadas e sem respostas convincentes diante da dor.  Mas por que eu digo isso?  Digo isso porque percebo que as religiões, com cultos, missas ou celebrações, não estão conseguindo comunicar o que na pauta existencial tem sido o desejo de mudanças. Há uma comunicação de práticas e regras, mas nada que ajude concretamente o mundo em que vivemos hoje. Vejo que as pessoas estão cansadas de religiões. Há, por fim, muito desencanto com a religiosidade. Por isso, na COVID passamos a ver Deus mais próximo e com menos intermediários. Adquirimos o habito inovador de “home spirituality”, que gerou mais autoconhecimento e fé, meditação, leituras e foco, concentração, propósito e na prática da caridade.

Outro fenômeno a ser considerado é que essa pandemia tem nos ajudado a voltar ao essencial e acreditar mais em nós mesmos, como coautores da obra do Bem, que é Deus. É um novo olhar sobre a espiritualidade, como uma capacidade inteligente de dar respostas verdadeiras a este momento de angústia: uma espiritualidade limpa, serena e sincera com a realidade humana.

Essa espiritualidade interior, divina e inteligente está gestando em nós um novo projeto de humanidade, ela se revela da seguinte forma:

  1. Está acontecendo em nós, querendo ou não, uma mudança de mentalidade: O que nos tocava fora, agora, é assimilado dentro de nós;
  2. Começamos a pensar e aceitar que uma mudança é possível e, melhor ainda, começamos a desejá-la.
  3. Estamos, por outro lado, nos revoltando internamente com as injustiças e começando a dar valor à vida, ao amor em sociedade, e para com as minorias. Um sentimento de compaixão e revolta que almeja por um mundo novo dentro de nós e fora de nós. Esse sentimento vai contra todos os nacionalismos inflamados, no qual se apresentam xenofobias, racismos, que sempre existiram, mas que agora, em tempos de intolerância e também de pandemia, exigem de nós decisão e coragem.
  4. Estamos começando a entender que as tecnologias precisam de limites: a comunicação se tornou muito violenta e sem autoria. Começamos a sentir necessidade de desmistificar as notícias falsas pela capacidade de comunicar o bem, sem violência. É a chamada “Comunicação Não Violenta”.
  5. Novas tecnologias nem sempre querem dizer melhor qualidade de vida. Por sinal, tem se revelado um tormento viver de “fake news”, de plataformas virtuais e de relações líquidas, vazias e sem afeto.

Logo, além dessas constatações, que geram em nós otimismo e confiança, nascem outras constatações de fé, pois ficar sem acreditar em nada, não dá para ficar. O SER HUMANO TEM UMA NECESSIDADE EXISTENCIAL, ESPIRITUAL DE ACREDITAR EM ALGO.

A esperança quebra toda a desilusão do mundo que está aí. Requer agora de nós construir “conteúdos, narrativas e sonhos” novos. Mas cuidado: há muitos palanques eletrônicos de coisa nenhuma, de nada ou dos mesmos e velhos conceitos de felicidade. A espiritualidade inteligente e madura nega as narrativas infantis e desconectados da realidade. Aliás, a esperança, uma das virtudes principais de um homem ou mulher espiritualizados, nega por si mesma aquilo que não conta com a “humanidade” para gerar vida, mudança ou mesmo transformação.

Narrativas ou conteúdos polarizados, absolutistas e dogmáticos não fazem parte de uma via, caminho ou espiritualidade sadia. O mundo que apostou neste conteúdo está cada dia mais fragmentado.

Por fim, chegamos à conclusão que o momento atual tem nos revelado que o nosso projeto pós-moderno de mundo não está funcionando bem.

Se a modernidade queria gerar uma vida de paz, prosperidade, segurança e qualidade de vida, que em essência é o que todos nós buscamos, realmente não está funcionando.

A riqueza que hoje podemos ostentar não é mais objeto de consumo e sim, os sonhos e esperanças de que as coisas vão melhorar, tudo vai passar e seremos seres humanos melhores. A esperança não é algo que consumo, mas algo que cultivo, alimento e vivencio. Creia, esse é o primeiro passo!

Marcelo Veronez, Filósofo, Teólogo e Especialista em Inteligência Espiritual. Diretor do IBIESP.

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